Mounjaro, Ozempic e cirurgia: o que fazer antes de anestesia, endoscopia e sedação, segundo a bula e a orientação brasileira de 2026
A regra antiga era "suspenda 21 dias antes". A de 2026 é "conte ao anestesista e deixe ele decidir". O que não mudou: quem esconde o uso da caneta antes de uma sedação corre um risco real.
Resposta direta
Mounjaro, Ozempic e Wegovy atrasam o esvaziamento do estômago, e as bulas registram casos de aspiração pulmonar durante anestesia geral ou sedação profunda. A nota da Sociedade Brasileira de Anestesiologia de maio de 2026 deixou de pedir suspensão de rotina: uso há mais de 12 semanas sem náusea ou vômito pode manter; suspender 7 dias só nos casos de maior risco. Dieta líquida nas 24 horas anteriores e ultrassom.
Há uma pergunta que o anestesista vai fazer antes de qualquer procedimento com sedação, e que muita gente responde errado por achar que "não é remédio de verdade": você usa alguma caneta pra emagrecer ou pra diabetes? A resposta muda o preparo. E esconder a resposta é o único jeito de transformar um risco administrável num acidente. Se a cirurgia em questão é a bariátrica, a comparação entre operar e continuar na caneta está em caneta ou bariátrica.
Este texto explica o risco, o que as bulas dizem, como a orientação brasileira mudou em 2026 e o que você faz na prática. O resto do medicamento está no Guia do Mounjaro.
O risco: estômago cheio na hora errada
Mounjaro, Ozempic e Wegovy fazem o estômago esvaziar mais devagar — é parte de como tiram a fome. Em dia normal, isso é saciedade. Durante anestesia geral ou sedação profunda, com os reflexos de proteção desligados, um estômago que ainda tem conteúdo pode refluir, e o conteúdo pode ir pro pulmão: é a aspiração pulmonar, uma complicação grave.
As bulas brasileiras registram isso com todas as letras. Ozempic: "casos de aspiração pulmonar foram relatados em pacientes que fazem uso de agonistas do receptor GLP-1 durante anestesia geral ou sedação profunda", e o risco "deve ser considerado antes de realizar procedimentos". Mounjaro: "foi reportada aspiração pulmonar (broncoaspiração) em pacientes submetidos a anestesia geral ou sedação profunda... antes da realização desses procedimentos, informe seu médico imediatamente sobre o uso desta classe de medicamentos".
Isso vale pra qualquer sedação, não só cirurgia grande: endoscopia, colonoscopia, broncoscopia, exames de imagem com sedação, procedimentos dentários ou estéticos sob sedação. O jejum tradicional de 8 horas foi calculado pra estômagos que esvaziam em ritmo normal.
Como a orientação mudou
Antes (2023 a 2025): suspender de rotina
A Sociedade Brasileira de Anestesiologia e a Sociedade Brasileira de Diabetes orientavam pausar o remédio antes de qualquer procedimento eletivo com anestesia ou sedação: 21 dias pra semaglutida (Ozempic, Wegovy), 15 dias pra tirzepatida (Mounjaro) e dulaglutida, 2 dias pra liraglutida (Saxenda). Era uma regra de precaução, baseada na meia-vida e em pouca evidência direta — e discordava da sociedade americana, que pedia só 7 dias pros semanais.
O problema dessa regra: semanas sem o remédio significam fome de volta, glicemia subindo em quem tem diabetes e, em quem está em escalonamento, recomeçar a adaptação. Pra uma endoscopia de rotina, o custo era alto.
Desde maio de 2026: avaliar o risco, não suspender todo mundo
A nota da SBA de 15 de maio de 2026 (C.SBA 01744/2026), que cobre semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida, mudou a lógica:
| O que a nota diz | |
|---|---|
| Regra geral | Não suspender de rotina. Uso crônico (mais de 12 semanas) sem sintomas digestivos = baixo risco, mantém o remédio. |
| Quem é alto risco | Quem está subindo de dose; quem tem náusea, vômito, estufamento ou saciedade precoce ativos; suspeita de gastroparesia; procedimentos anestésicos de maior risco. |
| Suspensão, só no alto risco | 7 dias pros semanais (Mounjaro, Ozempic, Wegovy); 1 dia pros diários (Saxenda). |
| Pra todos | Dieta líquida sem resíduos nas 24 horas anteriores + jejum de 8 a 12 horas conforme o anestesista. |
| No dia | Ultrassom gástrico (POCUS) pra conferir se o estômago está vazio. Se não estiver, o anestesista pode mudar a técnica (proteger a via aérea) ou adiar. |
Em resumo: a decisão passou do calendário pro anestesista, com uma ferramenta objetiva (o ultrassom) pra checar o estômago na hora. A Lilly, fabricante do Mounjaro, diz que o uso em cirurgia "não foi avaliado" e que a conduta é do médico com o prontuário na mão — não há regra da fabricante.
O que você faz, na prática
- Avise que usa a caneta na consulta pré-anestésica, no agendamento da endoscopia, no dentista. Nome, dose, há quanto tempo, quando foi a última aplicação e se mudou de dose recentemente. Isso é o que classifica o seu risco.
- Não decida sozinho suspender ou manter. Se o anestesista pedir 7 dias sem remédio, é porque você caiu no grupo de maior risco; se disser pra manter, é porque não caiu. Os dois estão dentro da orientação atual.
- Dieta líquida nas 24 horas antes: água, chá, água de coco, caldo coado, suco sem polpa, gelatina. Nada sólido, nada com leite ou fibra. Depois, o jejum que o anestesista determinar.
- Conte se estiver com náusea, vômito ou estufamento nos dias anteriores — mesmo leve. É o sinal que muda a conduta.
- Se o estômago estiver cheio no ultrassom, aceite o adiamento. É a nota funcionando como deve.
- Depois do procedimento, retome a caneta como o médico orientar. Se ficou mais de duas semanas sem, a bula do Wegovy prevê avaliar se o escalonamento recomeça; o Mounjaro segue a mesma lógica com o médico. Quanto tempo o remédio fica no organismo explica por que uma pausa de 7 dias não zera o efeito.
Urgência e parto
A orientação de suspensão sempre valeu pra procedimento eletivo. Em urgência, não há o que suspender: a equipe trata você como "estômago cheio" (técnica de proteção da via aérea) — por isso é tão importante que alguém saiba que você usa a caneta. Carteira, aplicativo de saúde do celular ou um familiar avisado resolvem. O Monju guarda o remédio e a dose atuais e gera o resumo que dá pra mostrar na emergência.
Parto e procedimentos obstétricos ficaram fora da regra de suspensão desde o começo; e a caneta, de qualquer forma, é suspensa na gravidez (o que as bulas dizem).
O que não fazer
- Esconder o uso por vergonha ou por achar que "não conta". É o único erro sem correção.
- Suspender por conta própria semanas antes sem orientação: pode ser desnecessário e custa a adaptação.
- Comer "só um pouco" depois do início da dieta líquida. O estômago lento transforma "um pouco" em conteúdo residual.
- Aplicar a dose na véspera se o anestesista pediu pausa.
Os sintomas digestivos que definem o seu risco, e como eles seguem a subida de dose, estão em efeitos colaterais do Mounjaro; o que comer nos dias de estômago sensível, em o que comer nos dias de náusea.
Perguntas frequentes
Preciso parar o Mounjaro antes de uma endoscopia?
Depende do seu risco, e quem decide é o anestesista. Pela nota da SBA de maio de 2026, quem usa há mais de 12 semanas sem náusea ou vômito pode manter; quem está subindo de dose ou com sintomas suspende 7 dias. Pra todos: dieta líquida nas 24 horas anteriores, jejum e ultrassom gástrico no dia.
Quantos dias antes da cirurgia devo suspender o Ozempic?
Se o anestesista classificar você como alto risco, 7 dias (orientação de 2026). A regra antiga de 21 dias foi substituída. Sem avaliação, não suspenda por conta própria.
Posso tomar anestesia local usando Mounjaro?
Anestesia local sem sedação (um dente, uma pequena sutura, uma biópsia de pele) não envolve o risco de aspiração, porque você está acordado com reflexos preservados. Mesmo assim, informe o profissional: se houver sedação, mesmo leve, a conduta muda.
Por que o jejum normal não basta?
O jejum de 8 horas foi calculado pra estômagos que esvaziam em ritmo normal. Com a caneta, parte da comida pode ainda estar lá — por isso a dieta líquida de 24 horas e o ultrassom no dia.
E se eu precisar de cirurgia de urgência?
Não há o que suspender. A equipe usa a técnica de "estômago cheio" pra proteger a via aérea. O essencial é que saibam que você usa a caneta: avise, ou deixe alguém que possa avisar.
Fontes
- Bula profissional do Ozempic 1 mg (semaglutida), Novo Nordisk Brasil, item 5 (aspiração associada à anestesia geral ou sedação profunda)
- Bula do Mounjaro (tirzepatida), Eli Lilly do Brasil, item 4 (aspiração pulmonar)
- Bula do Mounjaro (tirzepatida), seção 5.9 — FDA/DailyMed
- Portal Afya — Atualização no manejo pré-operatório de agonistas GLP-1/GIP: nota da SBA de 15/05/2026 (C.SBA 01744/2026)
- O Povo — Usa Ozempic? Veja cuidados caso precise de anestesia ou endoscopia (orientação anterior da SBA/SBD, 16/04/2024)
- Lilly Brasil (área médica) — tirzepatida em procedimentos cirúrgicos ou hospitalização
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica. Dose, troca de medicamento e conduta sobre qualquer sintoma são sempre decisão do seu médico. Em caso de sinal de alerta, procure atendimento.

