Existe genérico do Mounjaro? Quando vence a patente da tirzepatida no Brasil e o que são os projetos de quebra de patente
Depois que a patente da semaglutida caiu e o Brasil ganhou doze versões da molécula do Ozempic em sete meses, a pergunta virou "e o Mounjaro?". A resposta curta é 2036 — a longa passa pelo Congresso, por uma lei de 1996 e por um precedente de 2007.
Resposta direta
Não existe genérico do Mounjaro no Brasil: a tirzepatida é protegida pela patente BR 11 2017 010596-9, da Eli Lilly, que o INPI registra como válida até 5 de janeiro de 2036. Há três projetos no Congresso pra permitir a licença compulsória (a chamada quebra de patente), mas nenhum foi aprovado até novembro de 2026. Produtos vendidos como "tirzepatida genérica" ou "TG" não têm registro e foram proibidos pela Anvisa.

Em março de 2026, a patente da semaglutida acabou no Brasil, e até o fim de outubro a Anvisa registrou doze versões da molécula do Ozempic (Semavy ou Ozivy conta essa história). A pergunta seguinte foi inevitável: quando é a vez do Mounjaro?
A resposta, pelo registro oficial, é 5 de janeiro de 2036. Mas a data não é a única variável: o Congresso discute desde fevereiro de 2026 projetos pra antecipar a concorrência por meio de licença compulsória. Este texto explica as duas coisas — e por que nenhuma delas tem a ver com os produtos vendidos hoje como "tirzepatida genérica".
A patente da tirzepatida no INPI
A molécula do Mounjaro é protegida no Brasil pela patente BR 11 2017 010596-9, da Eli Lilly, com o título "Coagonistas de GIP e GLP-1, seus usos, e composição farmacêutica". Os dados do INPI:
| Etapa | Data |
|---|---|
| Depósito (pedido internacional) | 5 de janeiro de 2016 |
| Entrada no Brasil | 19 de maio de 2017 |
| Concessão | 8 de agosto de 2023 |
| Fim da proteção | 5 de janeiro de 2036 |
A regra é a da Lei da Propriedade Industrial: 20 anos contados do depósito. Até 2021 existia uma garantia mínima de 10 anos a partir da concessão, que esticava patentes que o INPI demorava a analisar; o Supremo derrubou essa regra (ADI 5529). Pra tirzepatida, isso não muda nada — mesmo pela regra antiga, os 10 anos depois da concessão terminariam em 2033, antes de 2036.
Você vai encontrar outras datas por aí. "2032" aparece em algumas reportagens e "junho de 2036" em outras, mas nenhuma das duas bate com o registro do INPI — a segunda provavelmente vem da patente americana, que tem prazo ajustado por regras dos EUA. Também existem pedidos de patente da Lilly sobre formulações e processos de fabricação, depositados entre 2019 e 2023; até a data deste texto, nenhum deles aparecia como concedido.
Por que não existe genérico agora
Enquanto a patente vale, só a Lilly pode fabricar e vender tirzepatida no Brasil. Por isso o Mounjaro é a única tirzepatida registrada na Anvisa — na caneta de dose única e na multidose, aprovada em março de 2026. Não há genérico nem similar, e a lista de canetas aprovadas pela Anvisa mostra isso.
E aqui está a confusão mais cara: "TG", "tirzepatida genérica", Tirzec, LipoLass e afins não são genéricos. Genérico é um produto registrado na Anvisa que provou ser equivalente ao de referência. Esses produtos não têm registro, ninguém verificou o que contêm, e a Anvisa determinou a apreensão e proibiu venda e uso por resolução — a mais recente, de outubro de 2026, diz que eles "não correspondem ao medicamento registrado na Anvisa". O Guia da tirzepatida lista as resoluções. O blog não orienta o uso de nenhum deles; a orientação da Anvisa a quem usa é parar e procurar o médico.
Tirzepatida manipulada também não é genérico: a Nota Técnica 200/2025 só admite a manipulação em caráter excepcional, quando não há produto equivalente no mercado — e o Mounjaro está no mercado. Mais em Mounjaro manipulado.
Os projetos de quebra de patente
"Quebra de patente" é o nome popular da licença compulsória, prevista nos artigos 68 a 74 da Lei da Propriedade Industrial. Pelo artigo 71, em caso de emergência ou de interesse público declarado em lei ou por ato do governo federal, o Executivo pode autorizar outros fabricantes a produzir um medicamento patenteado — de forma temporária e não exclusiva, e só se o dono da patente não atender a necessidade. A patente continua da empresa, que recebe royalties (a lei fixa 1,5% do preço líquido de venda como remuneração provisória).
Três projetos tratam da tirzepatida:
| Projeto | Autor | O que propõe | Situação em 04/11/2026 |
|---|---|---|---|
| PL 68/2026 (Câmara) | Dep. Mário Heringer (PDT-MG) | declara Mounjaro e Zepbound de interesse público, pré-requisito do art. 71 | urgência aprovada em 09/02/2026 (337 a 19); relator designado em março; pronto pra pauta, sem votação de mérito |
| PL 160/2026 (Senado) | Sen. Dra. Eudócia (AL) | autoriza licença compulsória da tirzepatida, com produção no Brasil e acesso pelo SUS | na Comissão de Ciência e Tecnologia, com relator, sem relatório |
| PL 5.427/2026 (Senado) | Sen. Paulo Paim (PT-RS) | declara de interesse público as patentes da tirzepatida | aguardando despacho |
Nenhum foi aprovado. E mesmo que um deles vire lei amanhã, o caminho até a farmácia é longo: o governo ainda teria de conceder a licença, e qualquer fabricante novo precisaria do registro na Anvisa — a própria lei diz que, sem autorização sanitária, o produto não pode ser vendido. Pra semaglutida, sem patente nenhuma no caminho, o primeiro registro saiu dois meses depois do fim da patente.
O Brasil já usou esse instrumento uma vez com remédio: em 2007, o Decreto 6.108 concedeu licença compulsória do efavirenz, um antirretroviral do programa de HIV/aids, para uso público não comercial.
O que dizem a Lilly e a indústria
A Lilly criticou o PL 68/2026 em nota de fevereiro de 2026: defende que a licença compulsória seja "excepcional, tecnicamente justificado e iniciado pelo Poder Executivo" e afirma não ter sido ouvida. Seis entidades do setor (Interfarma, Sindusfarma, Abifina, Alanac, PróGenéricos e Grupo Farma Brasil) assinaram nota conjunta contra o projeto, argumentando que não há falta de abastecimento. Do outro lado, os autores falam em preço e acesso pelo SUS. Em junho de 2026, quando chegaram as primeiras semaglutidas nacionais, a Lilly lançou combos com desconto no programa de pacientes.
O que isso muda pra quem usa Mounjaro hoje
Na prática, nada por enquanto: a tirzepatida registrada no Brasil é o Mounjaro, comprado em farmácia com receita retida. Quem busca alternativa de custo tem opções registradas pra conversar com o médico — a semaglutida (com várias versões desde 2026) e a liraglutida —, cada uma com resultado e indicação diferentes; a comparação está em Ozempic ou Mounjaro. Trocar de molécula é decisão de quem prescreve, e o escalonamento recomeça.
Perguntas frequentes
Quando a patente do Mounjaro cai no Brasil?
Em 5 de janeiro de 2036, segundo o INPI — 20 anos depois do depósito, feito em 5 de janeiro de 2016. Só um projeto de licença compulsória aprovado anteciparia a concorrência.
TG é genérico do Mounjaro?
Não. Genérico é produto registrado na Anvisa e testado como equivalente. TG e as outras "tirzepatidas" vendidas fora da farmácia não têm registro e foram proibidas por resolução da Anvisa.
A quebra de patente do Mounjaro foi aprovada?
Não. O PL 68/2026 teve a urgência aprovada na Câmara em fevereiro de 2026, mas não foi votado no mérito. No Senado, o PL 160/2026 está em comissão e o PL 5.427/2026 aguarda despacho.
Se a quebra for aprovada, o genérico chega logo?
Não de imediato. O governo teria de conceder a licença, e o fabricante novo precisaria desenvolver o produto e obter registro na Anvisa antes de vender.
Por que a semaglutida ganhou versões nacionais e a tirzepatida não?
Porque a patente da semaglutida terminou em março de 2026 e a da tirzepatida vai até 2036. A tirzepatida chegou ao mercado bem depois e é protegida por uma patente depositada em 2016.
Fontes
- INPI — patente BR 11 2017 010596-9 (Eli Lilly and Company), "Coagonistas de GIP e GLP-1, seus usos, e composição farmacêutica" (busca no pePI pelo número BR112017010596)
- Lei nº 9.279/1996 (Lei da Propriedade Industrial), arts. 40 e 68 a 74 — Planalto
- STF — ADI 5529 (inconstitucionalidade do parágrafo único do art. 40 da LPI), 2021
- Câmara dos Deputados — PL 68/2026, ficha de tramitação
- Senado Federal — PL 160/2026, tramitação
- Rádio Senado — Caneta emagrecedora poderá ter quebra temporária de patente (PL 5.427/2026), 22/09/2026
- Decreto nº 6.108/2007 (licença compulsória do efavirenz) — Planalto
- Metrópoles — Empresa dona do Mounjaro se manifesta sobre PL da quebra de patente, 11/02/2026
- Futuro da Saúde — Reação do setor ao PL da patente do Mounjaro, 11/02/2026
- Diário Oficial da União — Resolução-RE nº 4.035/2026 (tirzepatida sem registro)
- Anvisa — Nota Técnica 200/2025, regras para manipulação de canetas de GLP-1
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica. Dose, troca de medicamento e conduta sobre qualquer sintoma são sempre decisão do seu médico. Em caso de sinal de alerta, procure atendimento.



