Ozempic e humor: depressão, ansiedade, \"cabeça de Ozempic\" e o que a FDA e a EMA concluíram entre 2024 e 2026

O alerta de 2023 virou revisão de agência e meta-análise de 133 mil pessoas, e o resultado foi o mesmo em todas: sem aumento de risco. O que sobra é real, mas é de outra natureza: a comida que deixa de consolar, o sono, a hipoglicemia que parece ansiedade.

Resposta direta

Nada prova que a semaglutida cause depressão ou pensamentos suicidas. A EMA concluiu em 2024 que a evidência não sustenta relação causal; a FDA, em 2026, após meta-análise de 91 ensaios com 107.910 pessoas, pediu tirar o alerta das bulas do Wegovy, Saxenda e Zepbound. A bula brasileira do Wegovy não traz o alerta. O que muda é o silêncio da fome, a comida que deixa de consolar e a hipoglicemia que imita ansiedade.

Efeitos colateraismonju.app

Em 2023, relatos de pensamentos suicidas em pessoas usando semaglutida e liraglutida viraram manchete e abriram revisões na Europa e nos Estados Unidos. Três anos depois, as duas agências fecharam a conta, e dezenas de ensaios clínicos foram somados. Este texto conta o que concluíram, o que as bulas brasileiras dizem, e separa isso do que as pessoas de fato sentem no tratamento, que não é pouco. O resto do medicamento está no Guia do Wegovy.

A linha do tempo das agências

  • Julho de 2023. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) abre uma revisão depois de relatos de caso com semaglutida e liraglutida.
  • 11 de janeiro de 2024. A FDA publica sua avaliação preliminar: "não encontrou evidência de que o uso desses medicamentos cause pensamentos ou ações suicidas", nem nos relatos espontâneos, nem nos ensaios, nem nos estudos observacionais. Ressalva que "não pode descartar definitivamente que um risco pequeno exista".
  • 8 a 11 de abril de 2024. O comitê de segurança da EMA (PRAC) conclui a revisão de toda a classe (dulaglutida, exenatida, liraglutida, lixisenatida e semaglutida): "a evidência disponível não sustenta uma associação causal". Nenhuma alteração de bula.
  • 13 de janeiro de 2026. A FDA fecha a revisão com uma meta-análise própria de 91 ensaios controlados por placebo, 107.910 pessoas, sem aumento de risco, e um estudo da rede Sentinel comparando autolesão entre usuários de GLP-1 e de outro antidiabético, também sem aumento. Com isso, pede a retirada do alerta das bulas do Wegovy, do Saxenda e do Zepbound (a tirzepatida pra obesidade nos EUA). O alerta existia nessas bulas desde a aprovação, por herança dos remédios de emagrecer antigos, e não existia nas bulas dos mesmos remédios pra diabetes. A bula americana do Wegovy retirou a seção em fevereiro de 2026.

O que as bulas brasileiras dizem

A bula do paciente do Wegovy, na versão de dezembro de 2025, não traz alerta de humor, depressão ou ideação suicida. A do Saxenda também não. A única vez que "ansiedade" e "nervosismo" aparecem é na lista de sinais de hipoglicemia, que só acontece com insulina ou sulfonilureia junto. Depressão também não está entre as contraindicações, como mostra quem não pode usar; é condição pra avisar a médica, não pra deixar de tratar.

O que os estudos mostram

Dois tipos de estudo olham pra isso, e é importante não misturar:

Ensaios clínicos randomizados, que comparam remédio e placebo em gente sorteada, e por isso medem causa:

  • 86 ensaios, 133.378 pessoas (Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026): sem diferença em transtornos psiquiátricos no total (razão de risco 0,96), nem em depressão (0,88), suicídio (0,90), ansiedade (0,92) ou distúrbio do sono (0,98). Sem efeito de dose, duração ou tipo de remédio.
  • 25 ensaios (Journal of Diabetes, 2025): sem diferença em comportamento suicida (0,84), em nenhum subgrupo, inclusive adolescentes e semaglutida isolada.

Estudos de base de dados, que olham prontuários de quem já usava:

  • Nature Medicine, 2024: 240.618 pessoas com obesidade; quem usava semaglutida teve menos ideação suicida do que quem usava outro remédio de peso (razão de risco 0,27 pra casos novos). Replicado em 1,6 milhão de pessoas com diabetes.
  • Uma revisão de 2026 que juntou os dois tipos nota a diferença: os observacionais apontam risco menor, os ensaios apontam risco igual. A leitura prudente é "não aumenta"; a "proteção" ainda não está provada.

Em resumo: três agências, duas abordagens, uma resposta. O que as pessoas sentem, então, precisa de outra explicação.

O que as pessoas sentem de verdade

A "cabeça de Ozempic"

É o nome popular pra uma mudança que quase todo mundo descreve na segunda ou terceira semana: o pensamento constante em comida some. A literatura chama isso de food noise, e uma definição formal saiu em 2025: pensamentos persistentes sobre comida, percebidos como indesejados, que ocupam espaço mental e atrapalham. A caneta silencia esse ruído, e a maioria descreve como alívio, às vezes como estranheza ("não sei o que fazer com o tempo"). Não é efeito psiquiátrico; é o remédio funcionando.

A comida que deixa de consolar

Pra muita gente, comer era a resposta ao cansaço, à tristeza, à comemoração. Quando a vontade some, a função emocional da comida some junto, e o que ela cobria aparece. Não é depressão causada pelo remédio; é um hábito que deixou de funcionar, e que às vezes pede ajuda pra ser substituído. O mesmo vale pro álcool: muitas pessoas relatam menos vontade de beber, como está em Mounjaro e álcool, e quem bebia pra relaxar sente a falta.

Cansaço, sono e os primeiros meses

Comer pouco, dormir mal e enjoar deixam qualquer pessoa irritada e desanimada. Ozempic dá sono e cansaço e Mounjaro e insônia tratam das causas práticas, e a bula do Saxenda lista insônia como efeito comum nos três primeiros meses. É o quadro que mais se confunde com depressão, e que mais melhora com comida, água e sono em ordem.

A hipoglicemia que parece ansiedade

Suor frio, tremor, coração acelerado, nervosismo, dificuldade de concentração: é a lista da bula pra açúcar baixo, e é igual à de uma crise de ansiedade. Só acontece com insulina ou sulfonilureia junto, e o que fazer está em hipoglicemia no tratamento.

O corpo que muda

Perder 15% ou 20% do peso muda como as pessoas tratam você, o que cabe no armário, a imagem no espelho (inclusive o rosto). Pra alguns é euforia; pra outros, uma perda de identidade que ninguém avisou. Também não é efeito do remédio, mas é real.

O que é sinal de alerta

Os sinais são os mesmos de qualquer pessoa, com ou sem caneta: tristeza que não passa em duas semanas, perda de interesse pelo que gostava, isolamento, pensamentos de morte ou de se machucar. Isso não espera o próximo retorno: fale com a médica que prescreveu, e, no Brasil, o CVV atende pelo 188, por telefone, 24 horas, de graça.

Quem já trata depressão ou ansiedade pode usar a caneta, e os antidepressivos não interagem com ela, como mostra remédios junto com a caneta. O que se pede é avisar as duas médicas, pra que a psiquiatra saiba que o peso vai mudar (algumas doses dependem dele) e a endocrinologista saiba que há acompanhamento.

O Monju registra humor e sono junto com peso e dose, e a curva ajuda a ver se o desânimo coincide com subida de dose, com noites mal dormidas ou com nada disso.

Perguntas frequentes

Ozempic causa depressão?

Não, pelos estudos: 86 ensaios clínicos com 133 mil pessoas não acharam aumento de depressão, ansiedade ou suicídio, e a EMA (2024) e a FDA (2024 e 2026) concluíram que não há relação causal.

Por que a bula do Wegovy nos EUA tinha alerta de suicídio?

Por herança: os remédios de emagrecer antigos tinham esse alerta, e os novos nasceram com a mesma frase. A revisão da FDA de 2026 não achou risco e pediu a retirada; a bula americana foi atualizada em fevereiro de 2026. A bula brasileira nunca trouxe o alerta.

O que é "cabeça de Ozempic"?

O silêncio do pensamento constante em comida, que a maioria sente nas primeiras semanas. A literatura chama de food noise, e a caneta reduz. É efeito esperado, não psiquiátrico.

Quem tem depressão pode usar Ozempic ou Mounjaro?

Pode. Depressão não é contraindicação, e antidepressivos não interagem com a caneta. O que se pede é que a psiquiatra e a endocrinologista saibam uma da outra.

Ozempic dá ansiedade?

Os ensaios não mostram aumento. O que imita ansiedade é a hipoglicemia (só com insulina ou sulfonilureia junto) e o cansaço das primeiras semanas, que melhoram com comida, água e sono regulares.

Estou triste desde que comecei, o que faço?

Confira o básico (está comendo, bebendo água e dormindo?), veja se coincidiu com subida de dose, e fale com a médica. Se houver pensamentos de morte, não espere: CVV 188, 24 horas.

Fontes

  1. EMA — Meeting highlights from the Pharmacovigilance Risk Assessment Committee (PRAC) 8-11 April 2024 (GLP-1 e pensamentos suicidas)
  2. FDA Drug Safety Communication — Update on FDA's ongoing evaluation of reports of suicidal thoughts or actions in patients taking a certain type of medicines approved for type 2 diabetes and obesity, 11/01/2024
  3. FDA — FDA Requests Removal of Suicidal Behavior and Ideation Warning from GLP-1 RA Medications, 13/01/2026 (PDF)
  4. Bula do paciente do Wegovy (semaglutida), Novo Nordisk Brasil (EU-PI 20251212, v. 1.0)
  5. Association of GLP-1 Receptor Agonist Use With Risk of Psychiatric Disorders: meta-analysis of 86 randomised controlled trials, Diabetes Obes Metab 2026
  6. Chen J et al. Impact of GLP-1 Receptor Agonists on Suicide Behavior: A Meta-Analysis Based on Randomized Controlled Trials, J Diabetes 2025
  7. Wang W et al. Association of semaglutide with risk of suicidal ideation in a real-world cohort, Nature Medicine 2024
  8. Effect of GLP-1 Receptor Agonists on Neuropsychiatric Outcomes: systematic review and meta-analysis (observacional × ensaios), Clinical Therapeutics 2026
  9. Dhurandhar EJ et al. Food noise: definition, measurement, and future research directions, Nutrition & Diabetes 2025

Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica. Dose, troca de medicamento e conduta sobre qualquer sintoma são sempre decisão do seu médico. Em caso de sinal de alerta, procure atendimento.