Ozempic e visão: retinopatia, NOIA e o que a Anvisa e os estudos dizem sobre perda de visão

"Ozempic cega?" mistura dois assuntos que a bula separa. Um é conhecido desde 2016 e tem número; o outro entrou na bula em 2025 e ainda está sendo medido. Aqui estão os dois, sem alarme e sem minimizar.

Resposta direta

A semaglutida tem dois riscos ligados à visão. Em quem tem diabetes tipo 2, o SUSTAIN-6 registrou complicações de retinopatia em 3,0% contra 1,8% do placebo, ligadas à queda rápida da glicose. A NOIA, perda súbita e indolor de visão em um olho, foi classificada em 2025 pela EMA e pela Anvisa como muito rara (até 1 em 10 mil), com cerca do dobro do risco em quem tem diabetes. Perda súbita de visão é emergência.

Efeitos colateraismonju.app

Desde 2024 a pergunta "Ozempic causa cegueira?" aparece com frequência, quase sempre misturando dois assuntos diferentes. Um deles, a complicação de retinopatia em quem tem diabetes, é conhecido desde o primeiro grande estudo da semaglutida e tem número preciso. O outro, a NOIA, é uma perda súbita de visão rara, que entrou nas bulas em 2025 e ainda está sendo medida.

Este texto separa os dois, dá o número de cada um e diz o que fazer. Vale pra Ozempic, Wegovy, Rybelsus e pras versões nacionais da semaglutida; o contexto de cada medicamento está no Guia do Ozempic e no Guia do Wegovy.

Risco 1: complicação de retinopatia em quem tem diabetes

A retinopatia diabética é o dano que a glicose alta causa, ao longo de anos, nos vasos da retina. Quem tem diabetes há muito tempo pode ter retinopatia sem saber.

No SUSTAIN-6, estudo de 2 anos com 3.297 pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, as complicações de retinopatia (hemorragia no vítreo, cegueira, necessidade de laser ou injeção no olho) ocorreram em 3,0% com semaglutida contra 1,8% com placebo — razão de risco 1,76. A diferença se concentrou em quem já tinha retinopatia e usava insulina, e apareceu cedo no estudo.

A explicação aceita não é um efeito do remédio no olho, e sim um fenômeno conhecido do tratamento do diabetes: quando a glicose cai rápido, uma retinopatia que já existe pode piorar temporariamente antes de melhorar. Acontece com insulina intensiva também. Por isso a bula fala em "melhora rápida do controle glicêmico" como a causa provável.

Na dose de obesidade, o STEP 2 (pessoas com diabetes e obesidade) registrou alterações de retina em 6,9% com 2,4 mg, 6,2% com 1 mg e 4,2% com placebo. Em pessoas sem diabetes, esse risco não se aplica: não há retinopatia diabética pra piorar.

O que fazer: quem tem diabetes e vai começar semaglutida deve ter o fundo de olho avaliado, e quem já tem retinopatia precisa de acompanhamento oftalmológico combinado com o médico — a bula pede isso. Não é motivo pra não tratar; é motivo pra olhar.

Risco 2: NOIA, a perda súbita de visão

NOIA é a sigla de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica: uma interrupção do fluxo de sangue pro nervo óptico, que causa perda de visão súbita, sem dor, geralmente em um olho, muitas vezes percebida ao acordar. É uma doença que existe independentemente de qualquer remédio, mais comum depois dos 50 anos e em quem tem diabetes, pressão alta, apneia do sono ou um nervo óptico anatomicamente "apertado".

O que aconteceu

  • Julho de 2024: um estudo de um hospital de Boston (publicado no JAMA Ophthalmology) comparou pacientes que receberam semaglutida com pacientes que receberam outros remédios. Em quem tinha diabetes, o risco de NOIA foi 4,3 vezes maior; em quem tinha obesidade sem diabetes, 7,6 vezes. Era um estudo pequeno (17 casos no grupo da semaglutida com diabetes) e de um único centro especializado em olhos, o que pode inflar a proporção.
  • Junho de 2025: a agência europeia (EMA), depois de revisar estudos clínicos, dados de farmacovigilância e estudos populacionais grandes, concluiu que a NOIA é reação adversa "muito rara" da semaglutida — categoria que significa até 1 em 10 mil pessoas. Os estudos populacionais em adultos com diabetes tipo 2 apontaram cerca do dobro do risco, o que corresponde a aproximadamente 1 caso a mais por 10 mil pessoas-ano de tratamento.
  • 11 de junho de 2025: a Anvisa publicou o Alerta GGMON 06/2025 com a mesma conclusão e mandou os fabricantes incluir a NOIA nas bulas do Ozempic, Wegovy e Rybelsus como "muito rara". A bula brasileira do Ozempic hoje traz a NOIA na tabela de reações e um alerta próprio nas advertências. No sistema de notificações brasileiro, até então, havia 52 relatos de problemas oculares com semaglutida, 4 deles de neurite óptica isquêmica.
  • 2026: três meta-análises reunindo estudos populacionais acharam risco entre 2,4 e 3,4 vezes maior em quem usa semaglutida, principalmente com diabetes; uma quarta, incluindo outros agonistas de GLP-1, não achou diferença. A divergência vem do tipo de estudo: todos são observacionais, com pacientes diferentes entre os grupos, e a NOIA é rara o bastante pra que poucos casos mudem o resultado.
  • Setembro de 2026: a Anvisa informou estar investigando 13 notificações de suspeita de NOIA em usuários de GLP-1 no Brasil (5 com Ozempic, 3 com Wegovy, 2 com Wegovy FlexTouch, 2 com Rybelsus, 1 com Mounjaro), parte de 24 notificações com qualquer medicamento desde 2018. A agência frisou que são suspeitas, não casos confirmados, e que a presença do remédio e da doença na mesma notificação não prova que um causou o outro.

O que isso significa em números

Uma meta-análise de 2026 estimou a incidência em cerca de 118 casos por 100 mil usuários de semaglutida — pouco mais de 1 em mil ao longo do seguimento, em populações majoritariamente com diabetes. O "dobro do risco" da EMA, em termos absolutos, é 1 caso adicional a cada 10 mil pessoas por ano. É um risco real, raro e grave: a perda de visão da NOIA costuma ser permanente.

Pra comparar com o outro lado da balança: no SELECT, em pessoas com doença cardiovascular e obesidade, a semaglutida reduziu morte cardiovascular, infarto e AVC de 8,0% pra 6,5% em cerca de 3 anos e meio. Quem decide se vale a pena, pra cada pessoa, é o médico com esses dois números na mesa — não um texto na internet.

Sinais de alerta, decorados

Procure atendimento no mesmo dia se tiver:

  • Perda súbita de visão, total ou parcial, em um olho — sobretudo se percebida ao acordar e sem dor.
  • Piora rápida da visão em dias.
  • Mancha escura fixa ou sombra numa parte do campo visual.
  • Em quem tem diabetes: manchas flutuantes novas, "teia" ou visão turva que não melhora — podem ser sangramento da retina.

A bula orienta suspender a semaglutida se a NOIA for confirmada. Não suspenda por conta própria antes da avaliação: a decisão é médica, e parar a semaglutida de repente em quem tem diabetes tem suas próprias consequências. O que pode fazer sozinho é ir ao pronto-socorro oftalmológico.

Visão embaçada no começo: outra coisa

Visão embaçada nas primeiras semanas, em quem tem diabetes, quase sempre é o cristalino se ajustando: quando a glicose cai, o cristalino muda de hidratação e o foco oscila por alguns dias ou semanas. Acontece com qualquer tratamento que baixe a glicose. Passa sozinho, e vale esperar antes de trocar os óculos. Mas, como não dá pra distinguir sozinho de algo mais sério, relate ao médico — e, se for súbito ou em um olho só, trate como alerta.

Quem deve ter mais cuidado

  • Quem já tem retinopatia diabética: avaliação do fundo de olho antes e durante o tratamento, com o oftalmologista avisado de que a glicose vai cair.
  • Quem já teve NOIA em um olho: o outro olho tem risco maior de qualquer forma, e a decisão de usar semaglutida precisa desse dado.
  • Quem tem apneia do sono não tratada, pressão alta mal controlada ou nervo óptico "apertado" (o oftalmologista sabe dizer): são fatores de risco da NOIA em si.

Nada disso é contraindicação na bula. É informação que o médico precisa ter.

O que registrar

Dia e dose de cada aplicação, e qualquer sintoma visual no dia em que apareceu, com a descrição ("mancha", "embaçado", "um olho"). Se um dia precisar relatar, a data em relação à dose e ao início do tratamento é o que o médico e a farmacovigilância vão perguntar. O Monju guarda dose e sintoma no mesmo registro. E se tiver qualquer efeito grave, a notificação no VigiMed, da Anvisa, pode ser feita pelo próprio paciente — é assim que o número de casos brasileiros vai deixar de ser suspeita.

Outros efeitos raros com sinal de alerta próprio, como a pancreatite, seguem a mesma lógica: raros, graves, e com sintoma que dá pra decorar. A lista completa está em efeitos colaterais do Ozempic e do Wegovy.

Perguntas frequentes

Ozempic causa cegueira?

Existe um risco muito raro de NOIA, uma perda súbita de visão: até 1 em 10 mil pessoas, segundo a EMA e a Anvisa, com estudos apontando cerca do dobro do risco de quem não usa. E, em quem tem diabetes com retinopatia, o remédio pode piorar temporariamente a retinopatia pela queda rápida da glicose (3,0% contra 1,8%). Nenhum dos dois é comum; os dois pedem atenção a sinais súbitos.

Quem não tem diabetes corre risco de retinopatia com Ozempic?

Não: a complicação de retinopatia é da retinopatia diabética, que só existe em quem tem diabetes. O risco de NOIA, por sua vez, foi descrito nos dois grupos, com menos dados em quem não tem diabetes.

Mounjaro tem o mesmo risco de visão?

A complicação de retinopatia é descrita pra toda a classe em quem tem diabetes (as diferenças entre as moléculas estão em Ozempic ou Mounjaro). Quanto à NOIA, a classificação de "muito rara" é da semaglutida; a tirzepatida tinha 1 notificação na lista da Anvisa de setembro de 2026 e não recebeu a mesma classificação até agora. O assunto segue em avaliação.

Devo fazer exame de vista antes de começar?

Se tem diabetes, sim: avaliação do fundo de olho é o que a bula recomenda, principalmente se já tem retinopatia. Se não tem diabetes, não há exigência na bula, mas quem tem fator de risco pra NOIA (apneia, pressão alta, NOIA prévia) deve contar isso ao médico.

O que fazer se a visão embaçar?

Relate ao médico. Se for gradual, nos dois olhos e no começo do tratamento em quem tem diabetes, provavelmente é o cristalino se ajustando e passa. Se for súbito, em um olho, com mancha fixa ou piora rápida, é pronto-socorro oftalmológico no mesmo dia.

Fontes

  1. Marso SP et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Patients with Type 2 Diabetes (SUSTAIN-6), NEJM 2016
  2. Resumo das características do medicamento (RCM) do Wegovy, seções 4.4 e 4.8 (retinopatia, NOIAN) — EMA
  3. Bula profissional do Ozempic 1 mg (semaglutida), Novo Nordisk Brasil, item 9
  4. EMA — PRAC concludes eye condition NAION is a very rare side effect of semaglutide medicines (06/06/2025)
  5. Anvisa — Alerta GGMON 06/2025: perda da visão como evento adverso muito raro associado à semaglutida (11/06/2025), reproduzido pelo Legismap
  6. Conselho Federal de Farmácia — Anvisa investiga 13 notificações de doença ocular em usuários de medicamentos GLP-1 (30/09/2026)
  7. Hathaway JT et al. Risk of Nonarteritic Anterior Ischemic Optic Neuropathy in Patients Prescribed Semaglutide, JAMA Ophthalmology 2024
  8. GLP-1 Receptor Agonists and Risk of Nonarteritic Anterior Ischemic Optic Neuropathy: Systematic Review and Meta-Analysis, Neurology 2026
  9. Semaglutide and risk of NAION in type 2 diabetes: systematic review and meta-analysis, Graefe's Archive 2026
  10. Ocular disorders during treatment with GLP-1 receptor agonists: systematic review and meta-analysis of observational studies, Frontiers in Pharmacology 2026

Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica. Dose, troca de medicamento e conduta sobre qualquer sintoma são sempre decisão do seu médico. Em caso de sinal de alerta, procure atendimento.